24/10/2026

Do cume às profundezas

Tarcisio Miguel Sevegnani
Foto: Chafidwahyu, CC BY-SA 4.0
Aventura corria em seu sangue Juliana.Adrenalina que pulsa, que agita, que grita: vai!Do Rio de Janeiro à longínqua Indonésia,o calor era constante — por fora e por dentro.Agora, na trilha rumo ao cume de um vulcão,cada passo firme escondia um risco iminente.O primeiro acampamento trouxe alívio:vento frio cortante sob um céu de estrelas brilhantes.A manhã chegou.Com ela, a retomada da caminhada.O cansaço apertava.— Vamos, disse o guia.Mas as pernas doíam, e o corpo já gritava.Ela ouviu, se não dá:— Fique aqui. Descanse um pouco e depois continue.O tempo passou.Sozinha, enfrentou seu dilema.Seguiu em frente...O visual ao redor era hipnotizante —e ela quis ver mais de perto.As profundezas nos atraem, nos fascinam,nos puxam sem que percebamos.Um passo em falso.Ela caiu.E caiu.E caiu.As mãos buscavam o chão,mas o solo pedregoso facilitava o escorregar.Sentia-se descendo, cada vez mais rápido…até que um solavanco. Parou.O desespero só tomou corpo quando ela percebeu onde estava:abaixo, o abismo;acima, nuvens e o vazio de onde caíra.As horas passaram.O desespero virou silêncio.O silêncio, desesperança.Então, uma luz apareceu.Um drone pairou diante dela —e sumiu.Um sopro de vida.A alma reacendeu.De exaustão, adormeceu.E sonhou.Sonhou que voava —livre, leve, em direção ao oceano.Olhou para tráse se viu sentada, como quem dorme em paz.Voou por sobre as águas, já exausta.Ao longe, avistou a praia que tanto amava.Sua família estava reunida, rezando.Fez um voo rasante,quis pousar,mas não pôde.Com o bico, arrancou uma penae a deixou cair sobre eles.Todos correram para pegar —enquanto ela seguia em voo suave.Então, uma nuvem brancaa acolheu,para sempre.

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